Perambulando cá, por entre esse renque sem juízo nem moral que só se encontrava nas terras do Feicebuque, entre uma cerca viva e outra de quiabento, Embroda ouviu uma juíza da internet, cria do coronelismo político do sertão, bradar contra quem não tem um pedaço de rapadura no saco para roer com farinha seca.
A sujeita, que lustrava a própria honestidade com óleo de peroba, dizia-se contra esse negócio de o Estado brasileiro dar dinheiro a pobre vagabundo que não gosta de trabalhar. Remoía, inquieta, a ideia que a perseguia desde que perdera contratos valiosos com o governo.
Editoria de Arte da WAMas a mulher, que impunha o fim do mundo a quem atravessasse a sua reta, retrucou com placidez:
— Vê se pode, fia? — desabafou — Mas quá!, aqui governo nenhum nunca deu nada de graça: nem dinheiro, nem vespeiro a ninguém. Logo aqui, neste canto do mundo, onde gente sofrida peleja pra viver com dignidade.
Embroda podia ter permanecido onde estava, fumando seu cigarro de palha e vendo as nuvens brincarem de dar forma à imaginação no céu. Mas não. Era pior que o diabo pirracento. Enraiveceu-se feito mula braba, criou coragem e partiu com seu arranjo de palavras, como quem soubesse desde muito cedo que a fábrica da miséria tem endereço certo.
Cuspiu no chão, olhou para o vento e esperou a raiva secar ao sol. Então, como uma matraca em noite de quaresma, disparou contra a juíza Ondulenta, maior autoridade do Tribunal do Feicebuque.
Ralhou-lhe, aos desaforos, que quem vive agarrado ao bolso do paletó do poder e defende meritocracia durante o dia costuma bater continência a cargos e favores do governo durante a noite. Essa mesma gente, apostava, nunca ouvira Tom Zé em noite santa e enluarada do sertão.
— E, sendo assim, minha fia, tu não mereces perdão.
Como quem recebe a pomba-gira numa noite quente de lua cheia, em uma encruzilhada escura, Embroda, ao se retirar, vomitava letras aleatórias que, ao tocar o chão, [trans]formavam-se em poemas-protesto sem rima.
Já no fim do dia, a mulher do fim do mundo percebeu que aquilo a que chamava ressentimento cristão era simplesmente o diagnóstico de como a modernidade ocidental manifestara seus próprios afetos, numa intuição que parecia resgatar, com lucidez, a filosofia de Nietzsche, o filósofo da suspeita.
E explicou com veemência, batendo um copo de cachaça no balcão de madeira maciça:
— É esse ressentimento, fia, que certa gente de bem guarda dentro de si; que, por vergonha ou pela moral que lhe é imposta, impede-se de concretizar o ódio latente contra o próximo. Disfarçado de boas intenções, esse sentimento se volta contra quem almeja uma vida mais digna, sobretudo contra os que menos têm...
Afinal, nestes tempos, eu me distingo de ti pelo simples fato de possuir maior poder de consumo, de estar sob o signo do poder. Mas, fia, não desanime, não. Que o novo tempo [talvez, revolucionário] há de chegar.
