Orçamentos. Não deveríamos conviver com planilhas, números e projetos que parecem ter sido feitos para nos lembrar de que nossos sonhos têm preço. Não até estarmos preparados para tirá-los do papel sem arrancar nosso último centavo da conta.

Ninguém me avisou que, depois que a construtora entregasse as chaves do meu apartamento novo, na Olívia Flores, entre os bairros Candeias e Universidade, eu teria de reformá-lo por inteiro se quisesse levar uma vida minimamente digna em um apartamento popular de 38 metros quadrados na região mais cara de Vitória da Conquista.

Qualquer intervenção no espaço que incluísse uma bancada ideal para preparar aquelas receitas que salvamos na internet e um home office com iluminação quente e reconfortante, cercado por prateleiras repletas de clássicos da literatura, não sairia por menos de 50 mil reais.

Foi quando comecei a me perguntar: em que momento um apartamento novo deixou de significar um apartamento pronto?

Ao ver o orçamento, minimamente detalhado pela arquiteta, acompanhado de um projeto que previa a troca do piso laminado por porcelanato acetinado, revestimentos cerâmicos na cozinha e no banheiro, remodelação hidráulica e elétrica, pintura de todas as paredes, além de trilhos, spots e placas de drywall para cobrir o teto, comecei a questionar até onde o capitalismo seria capaz de chegar.

E, como se uma reforma de 50 mil reais não fosse suficiente para colocar qualquer pessoa diante de uma crise existencial, ainda havia os móveis, os eletrônicos, os eletrodomésticos e toda aquela coleção de pequenas coisas que alguém espera encontrar quando finalmente decide chamar um lugar de lar.

Eu havia comprado aquele apartamento ainda na planta, quase três anos antes, parcelado em pouco mais de três décadas — 420 meses, para ser mais exato —, e faltavam menos de seis meses para recebê-lo, pronto para morar.

Mas parece que nada nunca é tão simples quando se trata de um apartamento novo onde viverá um solteiro neurótico à beira de um colapso.

Naquela tarde, enquanto o sol das três sobrepujava o frio do inverno conquistense, a arquiteta colocou sobre a mesa do Eva Natural, meu café preferido no coração da Olívia Flores, um orçamento mais econômico como alternativa ao projeto que eu havia escolhido anteriormente.

Olhei esperançoso para aquelas novas possibilidades. Talvez ainda houvesse salvação para a minha conta bancária.

Talvez eu pudesse abrir mão de algumas coisas.

Talvez o azul pudesse ser outro azul.

Foi então que percebi que Azul Mozza não é qualquer azul.

É um tom específico. Um daqueles detalhes que parecem insignificantes até você imaginar a vida sem eles. E combinava perfeitamente com a minha personalidade — e, por que não dizer, com tudo aquilo que eu havia sonhado para o meu apartamento.

Descartei as novas opções. 

Em algum lugar entre a responsabilidade financeira e o desejo, escolhi o desejo.

Cogitei ficar sem um centavo na conta, mas com um banheiro perfeito para sentir jatos quentes saindo de uma ducha potente ao som de Diana Krall, enquanto as gotículas de água se dispersassem depois de colidir com um revestimento cerâmico azul-acinzentado, inspirado no mar Jônico.

Talvez fosse irracional.

Mas quem disse que construir uma casa é um exercício de racionalidade quando o juros se confunde com a parcela?

No fim do dia, ao telefone com Helder, eu tentava explicar a ele — ou talvez estivesse apenas tentando convencer a mim mesmo — que algumas coisas simplesmente não escapam ao nosso destino.

O meu, aparentemente, era estrear o apartamento novo com o piso certo, a iluminação certa, os rejuntes certos e, sobretudo, o azul certo.

Porque talvez morar sozinho seja isso: descobrir, aos poucos, quais são as coisas das quais não estamos dispostos a abrir mão.