Qual seria mesmo o preço a se pagar, como colunista, para fazer uma publicação sobre sexo na modernidade atingir a marca de um milhão de visualizações no Instagram em menos de 72 horas? Talvez R$ 7 mil em impulsionamento? Uma estratégia de marketing digna de uma agência de publicidade? Ou quem sabe uma fake news sobre Woody Allen abandonar Manhattan? Valeria qualquer absurdo suficientemente irresistível para fazer a internet perder a compostura?
No meu caso, não precisei pagar nada.
O preço foi quase um cancelamento na internet.
A sexta-feira parecia chegar ao fim como o desfecho de uma comédia romântica morna. Sem grandes reviravoltas, sem nenhum plot twist capaz de comprometer o roteiro do meu fim de semana. Eu havia enviado minha crônica semanal por e-mail para a Redação e não esperava uma repercussão como a de outras crônicas de sucesso, como “Vender foto do pé pode ser um bom negócio?” ou “Tadala: quem nunca tomou que atire a primeira pedra”.
Desta vez, havia escrito sobre como mulheres trans podem se tornar fetiche de homens héteros.
Um prato cheio para a internet.
No fundo, alguma coisa me dizia que aquele seria um tema com boas chances de provocar debate. Afinal, havia uma provocação na ideia de que muitos homens héteros podem experimentar uma atração por mulheres trans e, ao mesmo tempo, sentir desconforto em admitir publicamente esse desejo.
Eu só não sabia que a internet levaria a provocação tão a sério.
Em pouco mais de 72 horas, o post ultrapassaria um milhão de visualizações, acumularia milhares de curtidas e mais de dois mil compartilhamentos. Em algum momento, perdi a conta dos números — talvez porque, quando uma publicação começa a viralizar, você deixa de acompanhar as métricas e passa a acompanhar os comentários. E os comentários, descobri, podem ser muito mais assustadores.
A avalanche de visualizações veio acompanhada de uma espécie de declaração de guerra. Um grupo de mulheres trans passou a acusar a coluna — e, por consequência, este colunista — de transfobia.
Havia somente um pequeno problema: muitas das pessoas que me acusavam pareciam ter lido apenas o título ou a chamada da publicação. Era como ser condenado por um livro depois de alguém ter lido a orelha.
O perfil do Dois Terços, onde a assuntasó!, minha coluna semanal, está hospedada, foi tomado por comentários indignados, acusações e algumas boas doses de ironia. A caixa de comentários transformou-se rapidamente em uma trincheira digital. De um lado, quem enxergava transfobia. Do outro, quem tentava explicar que talvez fosse necessário ler a crônica antes de condená-la.
No meio disso tudo, eu.
Alguns comentários, felizmente, mantinham o senso de humor. Houve quem dissesse que aquele fetiche era mais antigo que as pirâmides do Egito. Outros preferiram transformar a discussão em uma espécie de campeonato informal de indignação.
E eu, que havia começado a sexta pensando no que pedir para jantar, terminava o dia tentando descobrir se ainda teria uma coluna na semana seguinte. Porque havia uma coisa que me preocupava mais do que os comentários.
Eu não poderia arruinar a imagem ou comprometer a reputação de um dos primeiros veículos de imprensa da Bahia a assumir publicamente um compromisso com a pauta da diversidade. Muito menos do próprio site que ajudei a fundar há quase vinte anos, quando Salvador ainda descobria que a internet poderia ser mais do que uma caixa de e-mail, uma sala de bate-papo e um lugar para publicar fotografias com resolução de calculadora.
Também não queria ser cancelado pela própria comunidade LGBTQIAPN+, processado ou perder minha coluna por algo que nunca fiz e, sobretudo, nunca tive intenção de fazer: promover qualquer tipo de preconceito, muito menos transfobia.
Mas a internet não costuma trabalhar com intenção. Ela trabalha com veredito. E, aparentemente, o meu já estava pronto. O que seria de mim?
Perderia a coluna? Seria transformado em meme? Precisaria escrever uma nota de esclarecimento com a gravidade de um presidente em pronunciamento nacional? Ou pior: teria de explicar para minha mãe por que meu nome estava circulando nas redes sociais?
Não. Definitivamente, eu não estava disposto a aceitar aquela sentença sem julgamento, defesa ou sequer direito a um advogado.
Alertei meu editor, que pareceu levemente tenso. Em seguida, por precaução — e porque minha neurose jamais perde uma oportunidade de trabalhar em hora extra — comuniquei o editor-chefe.
A resposta dele me surpreendeu.
Com o humor e a descontração habituais, ele me acalmou. Disse que a coluna havia conseguido promover um debate relevante e, mais importante, havia ultrapassado as fronteiras da própria bolha.
Chegara aos héteros.
E eles, segundo os muitos comentários deixados como marcas de um crime ainda não elucidado, haviam respondido da maneira mais heterossexual possível:
— Aí dentro.
Foi nesse momento que comecei a olhar para aquela confusão de outra maneira. Talvez algumas polêmicas tenham mesmo uma função. Elas servem para trazer à superfície aquilo que preferimos manter submerso.
Desejos que não queremos admitir. Fantasias que escondemos. Preconceitos que juramos não ter. Contradições que convivem confortavelmente dentro de nós até que alguém tenha a inconveniência de colocá-las em palavras.
Talvez seja justamente esse o papel de uma crônica sobre sexo.
Não ensinar ninguém a desejar.
Não dizer a ninguém por quem se deve sentir atração.
Muito menos apontar o dedo para quem deseja.
Mas perguntar por que certos desejos parecem tão confortáveis quando permanecem escondidos e tão ameaçadores quando ganham nome. No fim das contas, eu não precisei pagar sete mil reais em impulsionamento para alcançar um milhão de visualizações.
A internet fez o trabalho de graça.
E, como quase tudo que parece barato demais na internet, veio com uma pequena taxa escondida. Paguei com alguns dias de ansiedade e uma trincheira de comentários desagradáveis.
Mas talvez esse seja o preço de escrever sobre aquilo que todo mundo pensa e pouca gente admite. Porque, entre uma trincheira ensandecida de comentários e um milhão de visualizações, descobri que o verdadeiro alcance de uma crônica não está no número de pessoas que apertam o coração. Está na quantidade de pessoas que, depois de lê-la, ficam alguns minutos em silêncio pensando: “E se ele estiver falando de mim?”
