Por que, afinal, quem conta a história do festival nem sempre tem o melhor lugar para assisti-la?

Escrever sobre o Festival de Inverno Bahia enquanto ele acontece é, antes de ser um privilégio, uma experiência de sobrevivência jornalística. Há mais de 16 anos cobrindo grandes shows, aprendi que existe uma diferença enorme entre escrever sobre um evento depois que as luzes se apagam e tentar transformar o caos em narrativa enquanto ele ainda está rolando.

No festival, o texto não espera.

Ele nasce entre uma música e outra, no intervalo de uma entrevista, no meio do barulho da plateia. Às vezes, surge em um puff sobre uma grama sintética, com o computador aberto e a sensação de que, em cinco minutos, algum grande artista vai subir ao palco e você ainda precisa descobrir o que acabou de sentir.

É preciso assistir, fotografar, anotar, ouvir, checar, editar, publicar. Tudo ao mesmo tempo. Talvez seja justamente essa a graça — e a desgraça — de cobrir um grande festival. Enquanto você escreve sobre o que acabou de acontecer, alguma novidade já está ganhando os stories de dezenas de perfis da imprensa. O presente vira passado antes mesmo de conseguirmos descrevê-lo.

E há os perrengues, claro.

Porque nem todo bastidor é feito de credenciais, flashes e aquele suposto glamour que as pessoas imaginam quando descobrem que você foi “cobrir o festival”.

Nas últimas edições do FIB, os fotógrafos não têm contado com um espaço estratégico para registrar os shows. E aí entra aquela velha habilidade que o jornalismo brasileiro parece exigir com uma frequência assustadora: se virar.

Procura-se um ângulo entre o público. Estica-se o corpo. Disputa-se espaço. Calcula-se o momento. Improvisa-se a posição. E, quando tudo dá certo, surge a fotografia.

Mas fotografia de show exige mais do que talento para se equilibrar no meio da multidão. Exige condições de trabalho.

Quando elas existem, o improviso é criatividade.

Quando não existem, o improviso vira rotina.

E é exatamente neste momento que o glamour da cobertura começa a desaparecer.

Também ouvi de alguns colegas da imprensa que Zé Ramalho, primeira atração do palco principal desta 20ª edição, teria feito uma apresentação um tanto seca. Discordo.

Talvez tenha faltado uma experiência estética mais envolvente, capaz de criar uma atmosfera quase hipnótica e fazer o público esquecer, por alguns minutos, que está diante de uma multidão em um festival.

Mas será que todo artista precisa fazer isso?

Zé Ramalho escolheu outro caminho. Ele não sobe ao palco para fabricar euforia. Não parece interessado em disputar simpatia, fazer concessões ou transformar cada intervalo entre músicas em uma tentativa de conquistar o público.

Ele simplesmente sobe. E é Zé Ramalho.

Sua voz está ali. Seu repertório está ali. Sua persona está ali. E estão ali também canções que sobrevivem na voragem de décadas e gerações. 

Talvez a secura que alguns enxergaram seja justamente a ausência de uma embalagem. E, convenhamos, há algo de interessante em um artista que não parece preocupado em agradar o tempo inteiro.

Mas voltemos ao festival.

Porque, se há perrengues, também existem privilégios.

A estrutura do FIB 2026 tem méritos que precisam ser reconhecidos. O atendimento da assessoria de imprensa, por exemplo, tem sido acolhedor e profissional. E isso não é detalhe para quem passa horas trabalhando dentro de um festival.

A praça de alimentação ganhou quase uma segunda função: virou uma espécie de lounge informal da imprensa. Um pequeno oásis para quem precisa sentar, respirar, comer alguma coisa e recuperar as energias antes de voltar para o meio da multidão.

E existe a internet. Ah, a internet.

Para quem trabalha em tempo real, uma boa conexão não é luxo. É ferramenta de trabalho. E, nesse quesito, o festival merece crédito.

Mas talvez o problema esteja justamente nessa contradição.

O FIB sabe que a imprensa é importante. Credencia jornalistas e fotógrafos. Oferece assessoria. Disponibiliza conexão. Cria condições para que o evento seja divulgado.

Mas, quando chega a hora de fotografar os shows, quem está trabalhando precisa disputar espaço com o público e improvisar para conseguir fazer aquilo para o qual foi credenciado.

Enquanto isso, patrocinadores contam com seus próprios cercadinhos, confortáveis e estrategicamente posicionados.

E aí eu fico pensando: por que é tão fácil criar um espaço para quem está ali para vender a experiência e tão difícil criar um espaço adequado para quem está ali para contá-la?

Não se trata de querer privilégio.

Trata-se de reconhecer que comunicação também é parte da estrutura de um grande festival.

Afinal, depois que os palcos são desmontados, as luzes se apagam e a multidão vai embora, o que permanece?

As fotografias. As entrevistas. As matérias. As crônicas.

As histórias que alguém teve de parar tudo para contar enquanto o festival ainda acontecia. No fim, talvez os bastidores do FIB 2026 sejam justamente isso: uma mistura curiosa de perrengues e privilégios.

Há acolhimento, mas ainda falta estrutura.

Há acesso, mas nem sempre há espaço.

Há reconhecimento da imprensa, mas ainda existe uma certa distância entre reconhecer sua importância e garantir condições adequadas para que ela trabalhe.

E talvez essa seja a pergunta que fica quando a última música termina: se o festival quer ser lembrado por tudo aquilo que acontece no palco, não deveria cuidar melhor de quem está ali para garantir que ninguém esqueça?