Como um veterano nas coberturas de grandes festivais, aprendi que alguns privilégios chegam depois de muitos perrengues. É quase uma promoção por tempo de serviço: depois de quase duas décadas correndo com equipamento, disputando espaço, tentando descobrir onde fica a entrada da imprensa e fingindo que está tudo sob controle, você finalmente conquista o direito de escolher como quer contar uma história.

Gravar? Montar aquele pequeno circo que envolve câmera, microfone, roteiro, iluminação, enquadramento e uma sucessão de takes para alimentar as redes sociais? Ou simplesmente sentar, observar, fotografar e escrever?

Nas últimas edições do Festival de Inverno Bahia, tenho escolhido a última opção. Escrever diretamente do evento e mandar o texto para a Redação.

Talvez porque eu tenha desenvolvido uma espécie de alergia àqueles microfones segurados com dois dedos, como se fossem objetos radioativos, e à abordagem empobrecida de Instagram que transforma qualquer entrevista em uma sucessão de “fala um pouquinho sobre o show”. Eu passo.

Gosto de texto. Gosto de fotografia. Gosto da ideia quase antiquada de observar uma cena antes de transformá-la em conteúdo. E, principalmente, gosto de fazer jornalismo sem precisar carregar uma pequena produtora audiovisual pendurada no pescoço.

No momento, não gravo.

Não porque tenha desistido das redes. Apenas porque, entre a vontade de produzir e a necessidade de montar uma operação de guerra para produzir, descobri que algumas coisas não precisam acontecer imediatamente.

Então fico com a câmera, o computador e aquilo que talvez seja o equipamento mais barato e mais difícil de desligar: a cabeça.

Em um ambiente cada vez mais dominado pela urgência das redes sociais, eu estou interessado justamente no que parece menos urgente: olhar.

Enquanto alguém corre atrás do próximo take, eu observo o palco. Enquanto alguém pensa na legenda, eu penso na cena. Enquanto o algoritmo pede velocidade, eu tento lembrar que uma boa história nem sempre nasce depressa.

E é esta a minha pequena rebeldia como colunista: continuar acreditando que ainda existe alguma coisa interessante entre o acontecimento e o post.

Minha melhor fonte

Minha melhor fonte se chama Breno Santana. E isso diz muito sobre mim. Não sei absolutamente nada sobre muitos artistas novos. Tenho uma relação bastante seletiva com o que o grande público está consumindo e, aparentemente, o Spotify já percebeu isso há algum tempo. É aí que entra Breno.

Versátil, atento e muito mais conectado ao que está acontecendo no cenário atual da música, ele funciona como uma espécie de central informal de inteligência musical. Sabe quem está chegando, quem está fazendo sucesso, quem lançou projeto novo e, principalmente, quem eu deveria conhecer antes de sentar diante de um artista que, até cinco minutos atrás, eu sequer sabia que existia.

A divisão de tarefas é quase perfeita. Breno me apresenta o artista. Eu faço as perguntas. Ele me salva de começar uma entrevista com a frase que nenhum jornalista deveria dizer em voz alta: “Eu nunca ouvi falar de você.” É uma parceria baseada em confiança, informação e, eventualmente, prevenção de desastres.

Porque existe uma coisa que ninguém conta sobre grandes festivais: você pode ter anos de jornalismo, dezenas de coberturas no currículo e ainda assim se sentir um completo analfabeto diante de determinado nome do line-up. E tudo bem. Ninguém conhece tudo. Sempre haverá uma banda nova, uma música que você nunca ouviu, um artista que milhões de pessoas conhecem e você não.

A questão é o que fazer com a ignorância. Eu prefiro perguntar. Com uma boa fonte por perto, de preferência. 

No fim, a gente sai da sala de imprensa rindo da situação. Por que? Porque o jornalismo também é admitir que muitas vezes não sabemos, descobrimos e seguimos em frente antes que alguém perceba.

Bethânia até tenta disfarçar, mas não consegue

Maria Bethânia entrou no palco soberana. Sóbria. Quase austera. Há nela uma consciência absoluta da própria presença cênica: não precisa correr, explicar, disputar atenção ou fazer esforço para convencer ninguém de que aquele palco é dela. Basta estar.

É justamente por isso que é tão interessante assisti-la de perto. Bethânia conhece tão bem a própria persona que parece ter aprendido a controlar cada gesto, cada pausa, cada palavra. Mas existe um problema quando se chega a esse nível de domínio cênico: o corpo começa a trair aquilo que a artista tenta esconder.

Porque há momentos em que a deusa baiana deixa escapar a mulher. Acontece no rosto. Na voz. Na maneira como uma canção parece atravessar a intérprete antes de chegar ao público. Por alguns segundos, Bethânia já não parece apenas cantar uma história. Parece lembrar dela. E é aí que o espetáculo ganha outra dimensão.

Há algo de profundamente romântico naquela mulher que parece incorporar o eu-lírico das canções. O tom muda. O rosto muda. A temperatura da voz muda. São pequenas frestas na solenidade. 

Por elas entram as memórias, os amores, as perdas, os desejos e aquilo que o tempo fez conosco enquanto estávamos ocupados demais tentando não envelhecer.

Bethânia pode até tentar disfarçar. Mas há coisas que uma artista não consegue controlar. A voz conta, mas o olhar denuncia. E é nesse instante a parte mais bonita do espetáculo.

No fim, a gente celebra

Depois de dias de shows, entrevistas, fotografias, textos escritos quase em tempo real e aquela sensação permanente de que sempre existe alguma coisa acontecendo enquanto você tenta terminar o último parágrafo, chega uma hora em que tudo acaba. Ou quase tudo.

Porque existe um ritual. Um champanhe é estourado para celebrar mais uma cobertura concluída. Pode parecer exagero. Talvez seja.

Mas depois de tantos anos trabalhando com jornalismo, aprendi que pequenas celebrações são uma forma digna de reconhecer que sobrevivemos. O champanhe não celebra apenas o fim do festival. Celebra as horas de sono perdidas, os arquivos organizados de madrugada, as entrevistas improvisadas, as fotografias feitas no meio da multidão, os textos enviados enquanto o próximo show já começava e aquela velha sensação de que, por algum motivo que ainda não consegui explicar, eu continuo gostando disso.

Todo ano é assim. O festival termina. A cobertura termina. As fotografias começam a aparecer nas redes. Os textos ficam publicados. Os equipamentos são guardados. E, por alguns minutos, não existe pauta, deadline, credencial ou artista esperando na próxima sala. Existe apenas o brinde.

Talvez porque, depois de tantos anos, eu tenha descoberto que trabalhar com cultura é também colecionar pequenas histórias para contar depois. Algumas ficam nas fotografias. Outras, nos textos.

E algumas ficam apenas entre quem estava lá. No fim, é isso que sobra de mais interessante. A gente sobrevive ao festival. Celebra. E, no ano seguinte, volta. Porque talvez essa seja a verdadeira pergunta: por que, depois de tantos perrengues, a gente continua voltando?

Eu ainda não tenho uma resposta definitiva. Mas já tenho a minha melhor fonte para a próxima edição.