Enquanto meus dias se arrastam à beira do tédio, a única certeza de que tenho é que não há o que eu possa fazer para me livrar do inverno de uma cidade capaz de reunir chuva, rajadas de vento e quedas bruscas de temperatura nas mesmas vinte e quatro horas. Mas, como um improvável alinhamento dos astros, surgiu uma tríade perfeita para alguém caseiro como eu: chuva, frio e vento. Três excelentes álibis para faltar ao mundo e recusar qualquer convite enquanto eu continuasse olhando torto para os termômetros.
Talvez esse seja apenas um drama moderno de quem vive contando os dias para voltar à Chapada Diamantina e desfrutar do contraste quase indescritível entre o calor e uma brisa leve, enquanto um sol abrasante dá vida ao céu absurdamente azul e infinito, e do aconchego de uma casa do final do século 19, onde vivem meus pais, meus irmãos e todos os gatos que resolveram nos adotar.
Sonho com o dia em que poderei acordar depois das oito da manhã ao som do ronronar reconfortante de Tom, um korat cinzento de grandes olhos amarelos que reina soberano entre outros gatos da casa, enquanto esvazio sucessivas xícaras de café folheando algum cânone da literatura russa. Mas o verão parece distante demais. Até lá, resta-me passar fins de semana inteiros debaixo dos cobertores, lendo ficção comercial, ouvindo jazz em versões lo-fi e pedindo comida pelo iFood.
Ainda assim, meus dias seguem perigosamente próximos da monotonia. Os sábados e domingos repetem-se como um looping infinito entre tarefas domésticas e incontáveis revisões na minha dissertação de mestrado. Nunca imaginei que levar Machado de Assis para alunos da educação básica pudesse antecipar minha calvície em alguns anos. Minha única saída, portanto, era recorrer aos rituais culinários compartilhados com Arlei e Joabe.
Mesmo sem coragem para abandonar o abrigo dos cobertores, travesseiros e almofadas, em um colchão no chão, deixo que os tímidos raios de sol da manhã negociem silenciosamente comigo. Abro os olhos, fecho o livro que repousava sobre meu peito e finalmente decido me levantar. Cruzo o pequeno corredor do meu apartamento alugado, que aos poucos acabou se transformando em uma república masculina, e sinto o calor abandonar meu corpo à medida que retiro as camadas de um tecido felpudo que lembra a pelagem de um filhote de labrador.
Sigo para o banheiro para aliviar o peso da bexiga sem sequer me dar ao trabalho de fechar a porta. Essa talvez seja apenas uma das inúmeras vantagens de dividir um apartamento com outros homens. Ainda exalando preguiça matinal, escolho uma playlist de clássicos dos anos 1940 no Spotify para embalar o ritual de celebrar manhãs preguiçosas no segundo andar de um prédio de três andares, entre tantos outros no Recreio, em Vitória da Conquista.
Nosso café da manhã obedece a um ritual praticamente imutável. Beiju de tapioca com ovos mexidos bem cremosos, preparados com um fio de azeite de oliva extravirgem, folhas de rúcula orgânica, pães de leite e de batata, iogurte natural desnatado com mel e sementes de chia, além de um café aveludado com leite sem lactose. Um cardápio perfeitamente adequado para driblar a intolerância e suficientemente saudável para justificar minhas idas à academia duas vezes por semana, onde eu elejo quais séries são dignas de execução e quais são ignoradas com absoluto desprezo. No fim das contas, essa rotina parece suficiente para me convencer de que basta.
Entretanto. Contudo. Todavia. Excepcionalmente naquela manhã, quando minhas papilas gustativas imploravam por qualquer coisa que rompesse a monotonia do cardápio habitual, Joabe apareceu na cozinha carregando uma travessa de pães de queijo recheados com parmesão, recém-saídos do forno. O aroma amanteigado invadiu o apartamento antes mesmo que ele dissesse qualquer palavra. Pela primeira vez em muitos dias, tive a impressão de que o inverno poderia servir para alguma coisa além de me convencer a permanecer debaixo das cobertas.
Joabe, um jovem negro de 23 anos, era o integrante mais recente da República das Bananas, como acabei batizando o apartamento de quase 80 metros muito antes de perceber que o trocadilho nos definia melhor do que eu imaginava. Nossa pequena república vivia em permanente instabilidade política: nunca sabíamos quem faria as compras do mês, quem esqueceria de repor o papel higiênico, quem deixaria uma panela de molho na pia por tempo indeterminado ou quem, depois de um dia particularmente cansativo, sugeriria pedir pizza pela terceira sexta consecutiva. Nossa economia também não inspirava muita confiança. Dependíamos dos salários, das bolsas de estudo e da esperança de que o mês seguinte fosse um pouco mais generoso do que o anterior.
Joabe, porém, parecia ter sido enviado justamente para equilibrar esse pequeno caos doméstico. Era o único entre nós que realmente possuía dotes culinários capazes de nos fazer trocar o delivery por pratos que ele mesmo preparava com dedicação. Ele não apenas cozinhava, mas cozinhava com prazer, como se preparar uma refeição fosse uma forma silenciosa de cuidar das pessoas. Às sextas-feiras, frequentemente nos reunimos para experimentar algum prato preparado por ele. É um hábito simples, mas capaz de transformar uma república masculina em algo fortuitamente parecido com um lar.
Naquela manhã, contudo, ele resolveu antecipar esse cuidado. Os pães de queijo eram grandes, generosamente recheados, dourados por fora e incrivelmente macios por dentro. O parmesão derretido escapava discretamente pelas laterais, como se desafiasse qualquer tentativa de comer apenas um. Enquanto preparávamos o café, a conversa seguia despretensiosa, saltando de assuntos acadêmicos para memes da internet, das dificuldades da vida adulta às histórias improváveis que só acontecem em apartamentos compartilhados. Nada extraordinário. E, justamente por isso, inesquecível.
Foi então que me dei conta de que talvez passássemos boa parte da vida esperando pelos grandes acontecimentos. A defesa do mestrado. O emprego ideal. A viagem tão planejada. A entrega das chaves do apartamento novo. A mudança de cidade. O amor cinematográfico. Vivemos como se a felicidade estivesse sempre escondida no próximo capítulo, enquanto ignoramos os pequenos acontecimentos que insistem em bater à porta todos os dias.
Talvez crescer seja justamente aprender a reconhecer esses instantes antes que eles se transformem em lembranças. Talvez a vida adulta não seja feita apenas de boletos, prazos e dissertações intermináveis sobre Machado de Assis. Talvez ela também seja feita de manhãs frias, playlists antigas, amigos que entram silenciosamente na cozinha carregando uma travessa fumegante e do privilégio de compartilhar o café da manhã sem qualquer motivo especial para comemorar.
Enquanto terminava o segundo pão de queijo, porque evidentemente um só seria um desperdício de felicidade, comecei a me perguntar se não passamos tempo demais procurando experiências extraordinárias, quando a vida insiste em nos oferecer pequenas delicadezas perfeitamente comuns. Naquela manhã de inverno, descobri que algumas delas podem, inesperadamente, vir recheadas de parmesão.
